O microbioma intestinal na insónia e depressão

Estudos anteriores mostraram que o microbioma intestinal pode desempenhar um papel importante em quadros de depressão e ansiedade e que a alimentação pode alterar a composição bacteriana do intestino, sendo susceptível de aumentar ou diminuir o risco desses transtornos de humor.

Conforme observado no estudo Frontiers in Psychiatry, pesquisas crescentes sugerem que o microbioma intestinal ajuda a regular não apenas o humor, mas também o ciclo do sono, conhecido como eixo intestino-cérebro (uma "via" de comunicação bidirecional que liga os sistemas nervoso central e entérico).

De acordo com os autores desse artigo, a microbiota intestinal afecta a função cerebral por três vias diferentes, todas com fluxo bidirecional:

A via imunorreguladora

As bactérias intestinais influenciam a função cerebral através da interação com células imunológicas que regulam os níveis de citocinas, o factor de reacção citocinético e a prostaglandina E2.

A via neuroendócrina

Com mais de 20 tipos de células enteroendócrinas, o intestino é o maior órgão endócrino do corpo. Conforme explicado pelos autores, "o microbioma intestinal pode afectar o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) e o sistema nervoso central (SNC), regulando a secreção de neurotransmissores como cortisol, triptofano e serotonina (5-HT)".

A via do nervo vago

O sistema nervoso entérico também desempenha um papel importante na via do nervo vago. Aqui, a microbiota intestinal pode exercer sua influência através dos neurónios sensoriais do plexo mioentérico intestinal.

Esses neurónios intestinais têm conexões sinápticas com neurónios motores no intestino, os quais ajudam a regular a secreção de hormonas no intestino e a motilidade intestinal. Também existem conexões sinápticas entre o sistema nervoso intestinal e o nervo vago, conectando o cérebro e o intestino.

Os autores observam que os metabólitos neurotóxicos produzidos por vários microbiotas intestinais também podem entrar no sistema nervoso central através do nervo vago, "afectando a função cerebral, as respostas ao stress e a estrutura do sono".

Como mencionado, o fluxo de informações por essas três vias é bidireccional, logo, o sistema nervoso central também pode regular a composição do microbioma intestinal através dessas vias.

Como exemplo: a capacidade de alterar a função das células epiteliais no intestino, o eixo HPA podendo afectar o ambiente de vida das bactérias e, com isso, influenciar a composição do microbioma intestinal.

Os genes circadianos afectam o microbioma intestinal

Em 2017, o Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina foi concedido a três biólogos por sua descoberta de genes mestres que controlam os ritmos circadianos do corpo. O corpo não tem apenas um relógio biológico, mas uma séries deles, que regulam tudo, do metabolismo ao funcionamento psicológico.

Enquanto o relógio mestre no cérebro sincroniza as funções corporais de acordo com um ciclo de luz e escuridão de 24 horas, cada um dos seus órgãos e, na verdade, cada uma das suas células, tem seu próprio relógio biológico.

Metade dos genes estão sob controlo circadiano, activando-se e desactivando-se em ondas cíclicas. Assim, a microbiota intestinal também está sob controlo circadiano, o que significa que as interrupções no sono podem afectar também a composição e a saúde do microbioma. Conforme relatado na Frontiers in Psychiatry:

"Evidências sugerem que Clostridiales, Lactobacillales e Bacteroidales, que representam aproximadamente 60% da microbiota, mostram flutuações diurnas significativas que resultam em configurações taxonómicas específicas à hora do dia.

Liang Et Al. descobriu que os dois componentes principais da microbiota intestinal de mamíferos, Bacteroidetes e Firmicutes, apresentaram alterações cíclicas do dia para a noite, relacionadas não apenas à ingestão rítmica de alimentos e à estrutura alimentar, mas também ao relógio biológico e ao género do hospedeiro.

Estudos recentes mostraram que o desalinhamento do relógio circadiano, a privação do sono e o trabalho em turnos alteram a expressão génica do relógio circadiano e a estrutura da comunidade microbiana.

A interferência nos padrões de sono de camundongos também pode alterar a estrutura e a diversidade da microbiota intestinal. Essas descobertas sugerem que os genes circadianos podem afectar a microbiota intestinal."

Assim, e para resumir as descobertas da Frontiers in Psychiatry, existe uma conexão bidireccional entre o microbioma intestinal, o sono e o risco de depressão. As hormonas endócrinas e os genes do relógio biológico desempenham papéis importantes nesses processos.

A diversidade do microbioma está associada à qualidade do sono

O segundo estudo a tratar do curioso elo entre a saúde intestinal e o sono foi publicado no PLOS ONE em 2019. Aqui, os pesquisadores investigaram como os micróbios presentes no intestino afectam a qualidade do sono, o que já sabemos que pode ter efeitos duradouros na saúde geral.

A privação do sono e/ou o sono de pouca qualidade foram associados a diversas doenças e condições de saúde, que variam desde o baixo desempenho cognitivo à disfunção neurológica e maior risco de diabetes tipo 2, doenças cardíacas, cancro e Alzheimer.

Por outro lado, o sono de alta qualidade está associado a uma melhora da saúde, cognição e aumento da criatividade, conforme discutido na artigo "Usando o sono como uma ferramenta para a criatividade".

Usando dispositivos avançados para medição do sono, os pesquisadores conseguiram medir a qualidade do sono dos participantes, que foi comparada à composição do microbioma intestinal para verificar se era possível fazer uma correlação. Conforme relatado pelos autores:

"Descobrimos que a diversidade total do microbioma estava positivamente correlacionada ao aumento da eficiência do sono e do tempo total de sono e negativamente correlacionada ao despertar depois que se começa a dormir. Encontramos correlações positivas entre a diversidade total do microbioma e a interleucina-6, uma citocina já conhecida por seus efeitos no sono.

A análise da composição do microbioma revelou que a riqueza dos filos de Bacteroidetes e Firmicutes estava positivamente correlacionada com a eficiência do sono, as concentrações de interleucina-6 e o pensamento abstracto.

Por fim, descobrimos que vários táxons (Lachnospiraceae, Corynebacterium e Blautia) estavam negativamente correlacionados às medições do sono. Nossas descobertas dão início a relações entre a composição do microbioma intestinal, a fisiologia do sono, o sistema imunológico e a cognição, podendo levar a mecanismos capazes de melhorar o sono através da manipulação do microbioma intestinal."

O papel das citocinas

Como mencionado no início, sabe-se que o sono influência a função imunológica e as citocinas produzidas em resposta a um antígeno são mensageiros químicos multifuncionais que ajudam a regular o sistema imunológico inacto e adaptativo.

Curiosamente, as citocinas também parecem actuar como uma "interface vital entre a fisiologia do sono e a composição do microbioma intestinal", de acordo com esse estudo. Conforme explicado pelos autores:

"As citocinas IL-1β e IL-6 da via de fase aguda, em especial, estão fortemente associadas com a fisiologia do sono. A IL-1β é um importante factor sonogénico. A administração de IL-1β em humanos e animais aumenta o sono espontâneo e a fadiga, e a IL-1β aumenta com a perda contínua do sono.

Ao contrário da IL-1β, a IL-6 não é um factor sonogénico directo, mas a perda de sono resulta em aumento dos níveis de IL-6. No intestino, a inflamação mediada por IL-6 e IL-1β flutua em resposta ao stress e às doenças.

Por exemplo, a mucosite intestinal resulta no aumento da expressão de IL-6 e-IL-1β no intestino delgado, no soro e no tecido do cólon em camundongos. Nos seres humanos, o stress crónico sozinho aumenta a IL-6 e a IL-1β.

Apesar da estreita relação entre actividade das citocinas, a actividade do microbioma intestinal e o sono, apenas alguns estudos examinaram a composição do sono e do microbioma intestinal. Em humanos, pesquisas anteriores mostraram que a privação parcial do sono pode alterar a composição do microbioma intestinal em menos de 48 horas.

Um estudo mais recente mostrou que a alta qualidade do sono estava associada a um microbioma intestinal que continha uma elevada proporção de bactérias dos filos Verrucomicrobia e Lentisphaerae e que isso estava associado a um melhor desempenho em tarefas cognitivas.

Em resumo, o que esse estudo do PLOS ONE revela é que a composição do microbioma intestinal, a qualidade e a quantidade do sono, a função imunológica e a cognição estão todas relacionadas.

A duração do sono desempenha um papel no prognóstico da mortalidade

Como observado pelos autores do estudo:

"Nossas novas descobertas mostram que a duração objectiva do sono curto, aumenta o risco de mortalidade em adultos de meia-idade com FRCs (factores de risco cardiometabólicos) e daqueles que já desenvolveram DCVs (doenças cardiovasculares e cerebrovasculares).

Adultos de meia-idade com FRC que dormiam menos de 6 horas apresentavam alto risco de morte por DCV, enquanto adultos de meia-idade com DCV que dormiam menos 6 horas apresentavam alto risco de morte por cancro...

Se essas descobertas se replicarem em outras grandes coortes com medidas objectivas do sono, a curta duração do sono deve ser incluída na previsão do prognóstico da mortalidade em adultos de meia-idade com FRC ou DCV.

A principal descoberta do presente estudo indicou a existência de um risco aproximadamente dobrado de morte generalizada, por DCV ou não, em participantes que tinham FRC e demonstraram curta duração do sono na análise.

Por outro lado, indivíduos que tinham FRC e duração normal do sono no início do estudo não apresentaram um risco significativamente maior em nenhum dos resultados de mortalidade. Essa descoberta sugere que uma quantidade adequada de sono pode minimizar o efeito adverso dos FRCs nos resultados de mortalidade.

Por exemplo, participantes com FRC e sono curto apresentaram um risco 83% maior de morte por DCV, enquanto aqueles com FRC e duração normal do sono apresentaram um modesto risco 35% maior de mortalidade por DCV, que não é significativo...

Para concluir, a duração objectiva do sono curto é um modificador de efeito do risco de mortalidade associado ao FRC ou DCV. Mais importante que isso, nossos dados sugerem que o sono curto pode actuar na DCV contra a mortalidade por cancro através de diferentes mecanismos."

Orientações gerais sobre o sono

Considerando a enorme importância do sono para prevenir os dois principais assassinos nos EUA (as doenças cardíacas e o cancro), quanto tempo será necessário para se conseguir os benefícios de proteção?

Com base em uma revisão científica de mais de 300 estudos publicados entre 2004 e 2014, os especialistas compilaram as seguintes recomendações. Ter em mente que se se está doente, recuperando de lesões ou em período de gestação, pode precisar dormir mais do que o normal.

Grupos etários horas de sono necessárias para a saúde

Recém-nascidos (0 a 3 meses) 14 a 17 horas

Bebés (4 a 11 meses) 12 a 15 horas

Crianças de colo (1 a 2 anos) 11 a 14 horas

Crianças em idade pré-escolar (3 a 5 anos) 10 a 13 horas

Crianças em idade escolar (6 a 13 anos) 9 a 11 horas

Adolescentes (14 a 17 anos) 8 a 10 horas

Adultos (18 a 64) 7 a 9 horas

Idosos (mais de 65 anos) 7 a 8 horas

Fonte: Dr. Mercola

::: As informações contidas nestas páginas são resultado de pesquisas bibliográficas desenvolvidos pelo autor. Contudo, não deverão ser usadas como diagnóstico, pois cada caso terá a sua especificidade. Consulte sempre um profissional de saúde. ::: www.facebook.com/alquimiadoeu.eu  :  miguel.laundes@gmail.com  :  © Miguel Laúndes, 2021
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